Como nasce uma candidatura
Como nasce uma candidatura
Audiovisual aplicado às eleições
Felipe Soutello
Uma candidatura não começa no dia em que alguém decide ser candidata. Na maior parte das vezes, começa muito antes, quando uma pessoa passa a exercer algum tipo de liderança, representa interesses, defende uma causa, assume responsabilidades ou constrói uma trajetória profissional, comunitária, empresarial, acadêmica, associativa ou pública. Começa, sobretudo, quando passa a ser reconhecida por outras pessoas como alguém capaz de representá-las.
Algumas candidaturas são planejadas durante anos. Outras surgem de circunstâncias que ninguém poderia prever. Uma eleição muda, um partido precisa de determinado perfil, uma liderança deixa de concorrer, uma questão nova aparece na sociedade ou uma crise transforma alguém em referência. A política tem planejamento, mas também tem circunstância. Na maior parte das vezes, uma candidatura nasce justamente do encontro entre trajetória, circunstância, oportunidade e decisão.
Existe, por isso, uma diferença importante entre querer ser candidata e existir politicamente uma candidatura. Ela começa a ganhar sentido quando uma trajetória individual encontra uma necessidade coletiva. Mais importante do que saber por que alguém deseja disputar uma eleição é compreender por que outras pessoas poderiam desejar que aquela pessoa as representasse.
Essa diferença é central. Eleição não é apenas um processo de afirmação pessoal. É um processo de representação. E representação pressupõe alguém que representa e pessoas que se reconhecem naquela representação.
É justamente por isso que discutir como nascem candidaturas femininas exige olhar para a presença das mulheres na política brasileira. As mulheres são maioria do eleitorado, mas continuam sendo uma minoria expressiva nos espaços de representação. Na eleição de 2022, apenas 91 mulheres foram eleitas para as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, o equivalente a 17,7% do total.
A comparação internacional ajuda a dimensionar essa distância. Dados da União Interparlamentar mostram que, em 2025, as mulheres ocupavam 50,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados do México, 49,1% da Assembleia Legislativa da Costa Rica, 44,3% do Congresso dos Deputados da Espanha e 40,5% da Câmara dos Comuns do Reino Unido. Na Bolívia, que já registrava 46,2% de mulheres na Câmara dos Deputados em julho de 2025, a eleição realizada naquele ano elevou essa participação para 50,8%.
A comparação latino-americana é especialmente significativa. Não estamos falando de uma realidade política inalcançável ou restrita a sociedades completamente diferentes da nossa. México, Costa Rica e Bolívia conseguiram construir níveis de representação feminina próximos da paridade. Isso demonstra que a sub-representação não precisa ser compreendida como uma característica natural ou imutável da política. Instituições, regras eleitorais, mecanismos de incentivo, financiamento, organização partidária, participação e construção de lideranças podem modificar profundamente quem chega aos espaços de poder.
Não se trata, portanto, apenas de uma questão das mulheres. Trata-se de democracia e de representação. Quando um grupo que corresponde a aproximadamente metade da sociedade e à maioria do eleitorado ocupa menos de um quinto das cadeiras da Câmara dos Deputados, existe uma distância evidente entre participação na sociedade e representação nas instituições.
O Brasil tentou enfrentar essa desigualdade criando mecanismos de ação afirmativa. A legislação eleitoral passou a exigir que os partidos respeitem um mínimo de 30% e um máximo de 70% de candidaturas de cada sexo nas eleições proporcionais. A experiência mostrou, entretanto, que colocar o nome de uma mulher na urna não significa necessariamente construir uma candidatura.
Durante anos convivemos com aquilo que ficou conhecido como candidatura laranja. A candidata estava registrada, mas não tinha campanha, estrutura, recursos ou presença pública. Em alguns casos, sequer havia intenção efetiva de disputar a eleição. A Justiça Eleitoral precisou desenvolver critérios para identificar fraudes à cota de gênero, considerando elementos como votação zerada ou inexpressiva, prestação de contas sem movimentação relevante e ausência de atos efetivos de campanha.
A experiência revelou uma distinção fundamental: preencher uma cota não significa produzir participação política.
Foi necessário avançar também sobre os recursos. A Constituição passou a assegurar às candidaturas femininas pelo menos 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e da parcela do Fundo Partidário destinada às eleições, além de percentual equivalente do tempo de propaganda gratuita em rádio e televisão. Quando a proporção de candidaturas femininas ultrapassa os 30%, a destinação deve acompanhar essa proporção. Os partidos também devem aplicar pelo menos 5% dos recursos do Fundo Partidário em programas de promoção e difusão da participação política das mulheres.
São avanços institucionais importantes, conquistados depois de anos de baixa participação e de resistência dentro das próprias estruturas partidárias. Essa resistência também pode ser percebida nas discussões sobre anistias relacionadas ao descumprimento dessas políticas. A Emenda Constitucional 117, de 2022, ao mesmo tempo em que constitucionalizou garantias importantes para as candidaturas femininas, afastou sanções relacionadas à não aplicação, em exercícios anteriores, dos recursos destinados a programas de promoção da participação política das mulheres. Outras tentativas de ampliar anistias relacionadas às políticas afirmativas apareceram posteriormente no debate legislativo.
Esse histórico mostra que criar uma regra não significa transformar imediatamente uma cultura política. E ajuda a compreender por que incentivar uma mulher a participar da política não pode significar simplesmente convencê-la a colocar seu nome numa lista partidária. O verdadeiro desafio é construir candidaturas reais e competitivas.
É nesse momento que a trajetória volta a ocupar o centro da discussão. Antes de pensar em propaganda, slogan, redes sociais ou campanha, é preciso compreender o que aquela pessoa representa politicamente. Sua história, as causas às quais está associada, os ambientes em que possui legitimidade, as experiências que acumulou, os assuntos sobre os quais pode falar com autoridade e os grupos sociais que conhece verdadeiramente são os elementos a partir dos quais uma candidatura pode ser construída.
É daí que nasce o discurso. E discurso não é simplesmente aquilo que alguém fala em um palanque. É o sistema de significados que organiza uma candidatura. Precisa estabelecer quem aquela pessoa é, no que acredita, qual problema enxerga, que futuro propõe e por que sua presença na política faz sentido.
A comunicação não deveria inventar essas respostas. Deveria organizá-las e amplificá-las.
Essa distinção se tornou ainda mais importante porque vivemos em uma sociedade na qual praticamente toda trajetória deixa registros. Posts antigos, entrevistas, fotografias, vídeos, posicionamentos, atuação profissional e participação em entidades compõem uma espécie de biografia pública permanentemente acessível. Construir uma candidatura artificial ficou mais difícil e isso talvez seja uma boa notícia. Uma boa estratégia não deveria fabricar uma personagem, mas encontrar a expressão política mais clara de uma trajetória verdadeira.
A partir daí começa o planejamento eleitoral propriamente dito. Planejar uma candidatura exige deixar de pensar abstratamente em “eleitores” e começar a pensar em pessoas, segmentos, territórios e comunidades de interesse. Isso é particularmente importante nas eleições proporcionais. Uma candidata a vereadora ou deputada não precisa conquistar metade da sociedade. Precisa identificar os grupos que podem reconhecer nela uma representação.
Essa base pode ser territorial, concentrada numa região da cidade, num conjunto de bairros ou municípios. Pode ser profissional, formada por advogadas, professoras, profissionais da saúde, empreendedoras ou servidoras públicas. Pode nascer de uma causa, como direitos das mulheres, primeira infância, segurança, educação, empreendedorismo, meio ambiente ou proteção animal. Na maior parte das candidaturas competitivas, existe alguma combinação desses elementos.
O planejamento começa quando deixamos de imaginar um eleitor genérico e passamos a compreender onde estão as pessoas que potencialmente podem votar naquela candidatura e quais razões podem levá-las a fazer essa escolha.
Segmentar públicos, entretanto, não significa criar uma candidata diferente para cada um deles. A comunicação contemporânea tornou essa estratégia não apenas artificial, mas arriscada. Tudo pode ser filmado, tudo pode circular e quase tudo permanece disponível. Uma fala feita para vinte pessoas pode alcançar vinte mil ou dois milhões. É possível adaptar a ênfase, os exemplos e a linguagem aos diferentes públicos. O que não pode ser permanentemente reinventado é a identidade.
É nesse processo que aparece aquilo que podemos chamar de jornada do eleitor. Para fins de planejamento, ela pode ser organizada em três movimentos: empatia, racionalidade e consentimento social.
A empatia cria o primeiro ponto de conexão. O eleitor reconhece na candidata uma experiência, um valor, uma causa ou alguma dimensão da sua própria vida. A racionalidade aparece em seguida, quando essa identificação precisa encontrar razões que justifiquem a escolha: experiência, preparo, propostas, conhecimento e capacidade para exercer o mandato. Por fim, surge o consentimento social, quando o eleitor percebe que aquela candidatura é viável, possui apoio, é compartilhada por outras pessoas e pode efetivamente produzir representação.
Em uma síntese simples, a empatia aproxima, a racionalidade justifica e o consentimento social autoriza. Uma campanha competitiva precisa trabalhar as três dimensões.
Mas existe uma parte menos romântica e absolutamente indispensável desse processo: a matemática eleitoral.
Nas eleições proporcionais, não basta saber quantos votos uma candidata pode obter. Nós votamos em pessoas, mas a conquista das cadeiras depende também do desempenho dos partidos e federações. Na prática, uma candidatura proporcional disputa duas eleições simultaneamente: o partido ou federação precisa conquistar cadeiras e, depois, a candidata precisa conquistar uma dessas cadeiras dentro daquele conjunto.
É aí que entra o quociente eleitoral, calculado a partir da relação entre os votos válidos para determinado cargo e o número de vagas em disputa. Na eleição para vereador da cidade de São Paulo em 2024, o quociente eleitoral foi de 105.110 votos. Para deputado estadual em São Paulo, em 2022, foi de 246.239 votos. Para deputado federal pelo estado, 332.671 votos.
Esses números revelam por que a pergunta sobre quantos votos uma pessoa individualmente consegue obter é insuficiente. É necessário compreender em qual partido ou federação estará, quantos votos esse conjunto consegue produzir, quantas cadeiras pode conquistar e qual poderá ser a posição da candidata dentro daquela nominata.
A votação individual dos eleitos acrescenta outra dimensão ao problema. Como referência de competitividade — e nunca como uma nota de corte —, o vereador eleito com menor votação nominal na cidade de São Paulo em 2024 recebeu cerca de 22 mil votos. Entre os deputados estaduais paulistas eleitos em 2022, a menor votação nominal ficou em aproximadamente 45 mil votos. Para deputado federal por São Paulo, aproximadamente 72 mil.
Esses números não garantem eleição. O sistema proporcional brasileiro envolve quociente eleitoral, quociente partidário, desempenho individual, distribuição das sobras e outras regras. Uma candidata pode receber mais votos do que outra e não ser eleita porque disputam por partidos ou federações diferentes. Mas os números têm enorme utilidade para o planejamento porque transformam intenção em dimensão.
Dizer que alguém pretende ser deputada federal é uma coisa. Identificar onde estão as dezenas de milhares de pessoas que podem votar naquela candidatura é outra.
É a partir daí que o planejamento começa a adquirir concretude. É preciso estimar quantos votos podem estar associados à trajetória da candidata, quais podem vir de determinado território, de uma categoria profissional ou de uma causa, quanto será necessário crescer e como chegar a essas pessoas. É preciso também saber qual mensagem produz empatia, quais argumentos constroem racionalidade e quais demonstrações de força, apoio e viabilidade produzem consentimento social.
Por isso, a escolha partidária não pode ser tratada apenas como uma decisão ideológica ou institucional. Ela também é uma variável estratégica da eleição. Uma excelente candidata pode entrar numa nominata extremamente competitiva e disputar internamente com pessoas que possuem estruturas eleitorais muito maiores. Pode escolher uma legenda com pouca capacidade de conquistar cadeiras. Pode estar em um partido com grande votação coletiva, mas numa posição interna que torne sua eleição improvável. Ou pode encontrar uma combinação na qual sua trajetória, seus segmentos eleitorais e a capacidade coletiva da legenda se complementem.
Não basta escolher um partido. É preciso compreender também a matemática política daquele partido.
Quando essas questões começam a ser respondidas, uma candidatura deixa progressivamente de ser uma intenção e passa a se transformar em projeto. E isso nos leva novamente ao início: candidaturas não nascem apenas durante o período eleitoral.
Uma trajetória profissional pode estar construindo uma candidatura antes mesmo que a pessoa tenha pensado em disputar uma eleição. Uma liderança comunitária pode estar construindo representação. Uma presidente de entidade pode estar acumulando legitimidade. Uma advogada que passa a defender publicamente determinada causa pode construir autoridade sobre aquele tema. Uma mulher que participa da vida pública, ocupa espaços, estabelece relações, manifesta posições e assume responsabilidades está acumulando algo que nenhuma campanha consegue fabricar nos poucos meses de uma eleição: trajetória.
Por isso, se queremos ampliar a presença das mulheres na política, precisamos começar antes da eleição. É preciso ampliar sua participação nos partidos, nas entidades, nas organizações da sociedade civil, nos debates públicos, nos conselhos, nas associações, nos meios de comunicação e, principalmente, nos espaços nos quais as decisões são tomadas.
Representação política não começa com o pedido de voto. Começa com participação. Participação pode produzir liderança, liderança produz reconhecimento e reconhecimento pode produzir representação. Em algum momento, planejamento, circunstância, oportunidade e decisão podem transformar tudo isso em uma candidatura.
Isso não significa que toda liderança feminina deva necessariamente se transformar em candidata. Significa que toda mulher que construiu liderança deveria poder olhar para a política e enxergar essa possibilidade como uma continuação legítima de sua trajetória. Sem precisar começar do zero, sem servir apenas para completar uma cota, sem ser convidada apenas porque um partido precisa fechar sua nominata e, principalmente, sem descobrir depois de aceitar o convite que uma candidatura sem estrutura, recursos, estratégia e possibilidade eleitoral real não é necessariamente uma oportunidade.
Às vezes é apenas um nome numa urna.
O desafio é transformar participação em liderança, liderança em representação, trajetória em discurso, discurso em projeto, projeto em candidatura e candidatura em possibilidade real de poder.
Porque ampliar a participação feminina na política não significa simplesmente colocar mais mulheres nas eleições.
Significa criar condições para que mais mulheres possam vencê-las.

